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Série
Bidimensional /
ESPAÇO VIRGÍLIO / 2000
Alguns
artigos sobre esta exposição:
A
exposição que inaugura o espaço estabelece
uma relação com uma artista cuja trajetória
produtiva já tem um desenvolvimento, isto é,
com exposições já efetuadas, Vera Sandroni
e o artista plástico Carlos Fajardo, que a convidou
para mostrar sua produção bidimensional. O
trabalho de Vera Sandroni se envolve com uma oposição,
quase uma contradição em termos: uma dialética
entre materialidade e construção.
Há ao mesmo tempo um cuidado muito grande, técnico
com os elementos plásticos, geométricos, enquanto
sua colocação no espaço é feita
através de sobreposições de camadas
de superfícies transparentes ou translúcidas
de materiais tais como tule, vinil opaco, holográfico,
etc. Produzindo estranhas veladuras que ao mesmo tempo ressoam
como pintura e como monitor com seu desktop cheio de cores
e faixas, elementos simbólicos em overlay. A montagem
da exposição procura explorar a constituição
da obra, criando uma espécie de cubo central ao espaço
expositivo, fazendo com que o visitante, ao caminhar ao
seu redor, reponha essa natureza de sucessivas camadas visuais
que o trabalho sugere.
C. Fajardo
Os trabalhos de Vera Sandroni estão apoiados no suposto
de que os objetos pictórios se constituem no jogo
dialogal estabelecido entre a experimentação
das formas e a sua incessante busca de novos materiais,
a tensa relação com as influências e
o encontro de suportes capazes de se integrar aos projetos
e conceitos que animam a realização das obras.
As chapas de acrílico ocupadas em seu duplo, verso
e reverso, tinta em uma face e adesivos de vinil em outra,
permitem na intercalação de seus motivos e
arranjos a criação de zonas de transparência
e pontos de fuga capazes de projetar, nos vazios e intervalos,
as sempre barulhentas vozes do silêncio, de que nos
fala Maurice Marleau-Ponty. O olho vê e a sensibilidade
capta, através das colagens e montagens, estruturas
que convidam a se pensar como os temas da representação
e da apreensão mimética da experiência
perdem terreno para os da construção/elaboração/constituição
de campos de sentidos que nascem do singular e muitas vezes
imprevisível arranjo dos materiais significantes
dispersos.
Esta modalidade de metalinguagem, onde estão em jogo
o(s) conceito(s) de arte, opera a fusão original
das formas de expressão e do conteúdo capazes
de recuperar e reorientar motivos cujos ecos poderiam ser
ouvidos nos vales e altiplanos do mundo andino. Tecidos,
telas, tapeçarias, faixas de cores, sugestões
de personagens míticos, quadrados, retângulos,
pequenas e grandes tiras, em combinações que
irradiam luz e recendem história graças à
estratégia do recortar e colar. Talvez resida neste
ponto uma das singularidades dos trabalhos de Vera Sandroni:
a capacidade de participar, no contemporâneo diálogo
da arte, como um fazer/montagem sustentado nas operações
do estilete e da cola e que promove, pelo deslocamento e
ressignificação dos materiais, um novo encontro
com certas linhas de força da cultura.
Possivelmente esta seja a maneira particular através
da qual a artista pense e execute os seus objetos pictóricos.
Visto em seu conjunto, os trabalhos desta exposição
nos convidam a refletir sobre a possível existência
de relações fundantes entre os procedimentos
de construção dos objetos pictóricos
e os próprios imbricamentos culturais que marcam
o estar no mundo da artista. Neste sentido, a escolha do
material em acrílico, a estratégia da colagem,
o suporte afastado da parede que facilita a circulação
de novos campos de luz, movi-mentos e significados ,
os motivos aparentemente andinos, convidam à recuperação
de um enunciado tão caro a Sérguei Mikhailóvich
Eisenstein:
a linguagem não deve se contentar apenas em transmitir
o conceito, mas precisa, igualmente, funcionar como a própria
via para a construção do conceito.
Adilson Citelli
Um
Opósito em Equivalência (jogando conversa)
Tão logo finda a semântica dos que fazem, a
semântica dos letrados e sábios entra em ação.
"Não é o que é". Mas, seja
o que é na forma de não é, logo; negar
o que é, é definir o que não é.
Delírio?, talvez, mas pode-se pensar naquele estado
de graça que criou A Terceira Margem do Rio: a terceira
margem numeral ordinal, in-gráfica, a-mental, a-semântica,
expressão de um extensivo elevado, esse desconhecido
que rompe com a lógica binária, e de onde
tudo conflui para a idéia da síntese criativa.
Somente a terceira margem que existe por não existir
persiste na memória de todos os que leram. Assim,
penso que no meu trabalho a transparência é
seu equivalente visual. A transparência é um
exemplo de unidade de contrários, pois é matéria,
mas que nos permite ver através dela como se não
fosse; o "terceiro" da relação binária
a que estamos habituados, e à qual parece que teoricamente
estamos condenados. Através dela inicio o ato criativo,
expando, colo, recorto sem abusar - do espírito do
fantástico-do saber, fazendo surgir do nada aparente
o objeto pictórico, apenas uma construção.
É..., mas, o delírio, presente no reconhecimento
de uma primeira ou de uma segunda, e mais ainda, de uma
terceira margem do rio, pode ser apenas mais um valor; atmosférico,
irado, vulcânico, tribal, ou, entrópico, vai
a gente saber! quase tudo pode ser enganosamente, ou não,
tudo. Vejamos, o saci anda, pulando, numa perna só,
e não se cansa; no entanto, todos andam sentados
sobre trilhos ou pneus e ficam cansados. Nada explica essa,
só se explica o intervalo lógico entre o plano
do fantástico e o da realidade, mas não sua
coexistência. Não é por acaso que Guimarães
Rosa afirma, e com isso vai abrindo distância em relação
ao mito: "as formas estão sempre dispostas a
renascer", cujo exemplo mais apurado está no
Grande Sertão: Veredas, e nos obriga a ler seu livro
fazendo uma leitura megaliterária da literatura.
Puxa!, essa ficou mais difícil do que a frase do
Eisenstein! Ufa!
Vera Sandroni
O
MÁRMORE
Ao olhar uma placa de mármore branco, sente-se a
força condensada da natureza e da ação
humana que extraiu da pedreira a luzidia placa já
polida. É o instante em que o mármore olha
para nós, pelo menos para mim existe um chamado para
a ação; interferir nesse processo, dar e retirar
algo desse material que se dispõe ao meu olhar, tocar
sua fineza, romper sua espessura, manipular esta superfície
para arrancar-lhe uma plasticidade mais intensa. Traçar
uma organização formal oposta à sua
natureza já constituída, sem no entanto removê-la,
o que seria impossível. Esse processo de sobreposição
criou o elemento de transparência, que eu perseguia.
A maneira de apresentar sua entranha na superfície,
permite desfrutar dessa gélida brancura que reflete
como neve encobrindo o solo, com todas as implicações
dessa comparação, e até mesmo fica
sugerida a espessura com que o solo é coberto pela
neve. Mais, recoberto, o que lembra o renascer após
o desgelo. No entanto, o reflexo da luminosidade desse branco
não é imaculado, pende para o pictural exigindo
um complemento que dialogue com ela e faça surgir
o objeto pictórico.
Muitos tenderão a crer que esse trabalho se situa
entre a escultura e a pintura; eu, no entanto, considero
que o tratamento de superfície é preponderante,
muito mais que sua estrutura no espaço. Agora, segue
que o inverso ocorre em relação à cor,
aqui usada como atributo dos materiais, mas cujo emprego
utiliza-se do recorte e colagem, técnica da tradição
pictórica.
Bem, julgar o próprio trabalho é impossível,
porém, é sempre possível conversar
um pouco sobre ele.
Vera Sandroni |
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